Quero fazer um poema de início,
sobre as coisas que se iniciam
despretensiosas
e ficam suspensas sobre as vontades primeiras.
É um poema sobre potencialidades,
instantes que tomam corpo
e se agigantam ansiosos
por tornarem-se nuvens imensas,
chuva e graniso.
Não me importa o que possam
vir a ser,
quais serão seus esqueletos
ou como falarão sobre o amor,
um ipê multicor com grossas
e extensas raízes.
Me importa o impulso de sua criação
seu espírito de semente
a lançar raízes sobre os leitores
e sorver-lhes as paixões, as lembranças da infância
e os desejos primitivos.
O poema deve ser apagado
riscado e rasurado
até que dispense a folha
a tinta, o grafite
e se torne a pulsão interior
que o criou.
Assim é feito o poema primeiro,
o poema-início
o poema-impulso
e depois disso resta apenas o pó
e uma pobre porção
de palavras.