Às árvores solitárias,
isoladas nos campos uniformes,
despreendidas de sonho e comunhão,
dedico esse triste poema
de solidão e pernúria.
Vagas vozes lhe chegam no vento,
mas é feita de luta e intempérie
sua bruta seiva,
lágrima estonteante
carregada de desespero
e tristeza lenhosa.
Branda resistência
de quem assistiu a violência
e ficou ali,emudecida,
gritando um silêncio profundo
que abalou rocha e rio
e ardeu em fúria nos corações.
Árvore solitária,
poupada em sua miséria
e contorção.
Esse é um poema de desespero,
desesperado e inútil,
solto no correr do tempo
que te corrói em ranhuras,
como cicatrizes de fúria
a crescer em sua sombra.
Mártir vegetal,
símbolo de persistência e força,
que esse poema reverbere nos astros
e em suas raízes cansadas;
que soe doce essas palavras
em seu fluir interior de águas,
e te acalme a dor e expanda o grito,
com suaves palavras
feitas com meu sonho e sangue
dizendo tranquilo em sua fronte
poemas e palavras de amor e chama.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Você não me completa.
Na verdade, o sentimento é completamente oposto.
Você me incompleta,
distorce o mundo já feito
e se abre a mim,
como uma flor de hibisco,
a infinitas possibilidades.
Com você, há sempre uma carta a escrever.
Nada parece suficiente
frente ao tudo que você me representa.
Há sempre um sentimento novo
no amar-te
que precisa ser apalpado
pela minha precoce poesia
e cheirado
cheio de desejos e ardências.
O mundo se dispersa
em você.
Te sinto em tudo que toca,
me choca, me chama
e me embeleza.
Mas parece que a tudo falta algo,
sua presença não está lá
para ser digno do amar.
São paixões,
dessas que se tem com tudo.
Com você há sempre um mundo
a ser explorado,
um novo ângulo para te fitar,
uma sensual geografia
para ser cuidadosamente beijada,
um grito novo a ser cantado
pelos pássaros.
Não quero completar-me,
terminar-me nem falso ser tudo.
Quero mais esse seu corpo
de profundo vazio
que faz o tudo que minha vida pronuncia.
você é o espaço do meu possível,
o impossibilitar da perfeição,
minha quente utopia,
minha eterna revolução.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A ti, entrego-me inteiro,
sujo e pobre na imensidão do mundo.
Podes me dar o celeste
e o orbital mais belo
de todos astros espaciais.
Podes me dar a liberdade
do céu, o azul espelhado
que enfeita o mundo de beleza.
Podes me dar o vôo,
a agilidade dos mensageiros e
as núpcias da Primavera.
A ti, posso te dar apenas
umas mãos calejadas,
um corpo rugoso e suado
e um desejo cru
de eternidade.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
poema incidental
para Talita
um rio carregado de você
me afoga.
não quero margens secas
nem a margem de lá
quero a correnteza
te fluir em mim,
menina de água doce
doce marola de mar...
arquipélago de estrelas
desvios indefinidos de sentimento
sou um sedimento de terra
flutuando em suas águas
deságua seu corpo
em meu leito de barro
jarro de flor na mesa do café
fluído deslize
flui
flui,menina
me flui
um rio carregado de você
me afoga.
não quero margens secas
nem a margem de lá
quero a correnteza
te fluir em mim,
menina de água doce
doce marola de mar...
arquipélago de estrelas
desvios indefinidos de sentimento
sou um sedimento de terra
flutuando em suas águas
deságua seu corpo
em meu leito de barro
jarro de flor na mesa do café
fluído deslize
flui
flui,menina
me flui
Desaprendemos a escutar os outros.
Parece que não pulamos mais
nesse poço de cachoeira,
garganta profunda de gritos interrompidos;
temos demasiado medo
de cobras e chacais
vagando na calada da noite.
Desaprendemos a escutar os delírios
os sonhos mal formados
as estórias de ferro e fogo
os desejos crepitantes
as crenças imemoriáveis
dos outros a nosso redor.
Ficamos apenas na superfície da pele,
parece que não mais vagamos
as incertezas das entranhas
e das carnes mais profundas das pessoas.
Vivemos um desencostar,
um invisível casulo mal cristalizado
que nos comprime amor e devaneio
e não nos deixa sentir as angústias,
as vitórias
e as celebrações dos outros.
Peço humildemente
aos tantos que se desesperam
que se acariciem mais,
ouçam as pulsações do coração
dos desconhecidos
e se deixem maravilhar
pelos desencontros e esperanças
das vidas dos homens e mulheres.
Dispa-se de medo e sombra
e saboreie sua diversidade
em idiomas alheios a sua alma.
Reaprendamos a ouvir delicadamente
e o infinito desprenderá
dentro de nós.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
A saudade é vento forte
que sopra longe o sorriso
e faz a gente lá longe ir buscar.
Ele sai voando entre as pétalas,
rodopia num compasso
e cai lá no limite dos olhos.
E aí, tem que ir buscar,
pulando os pedregulhos,
trepando os galhos de árvore.
Aí chega machucado,
todo dolorido,
mas pega o sorriso com as duas mãos
e volta assobiando com os colibris,
correndo com as preás
e cantarolando pra casa.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
A frase que não foi dita,
inundada no vácuo
e na memória.
Ressoou branca
nos relevos extremados
da língua,
voou soberana pelo céu vermelho
para se acabar solta no imaginário.
Frase concebida disforme
no esmorecer da tarde
na frágil liberdade dos Homens,
Mulheres e brisas febris.
Ela, sintaxe contorcida de idéia,
dissolvida no ar
como promessa de esperança,
rima de infância
desespero inocente.
Broto de poema
na inutilidade da folha branca,
a frase não saiu,
engasgada entre pêlos e sombras,
luzes e movimentos.
Equilibrista
de finas cordas vocais
que separam gozo e solidão,
a frase caiu em gargantas alheias
e foi falada sem a emoção digna
de seu retumbante efeito.
A frase guardou-se,
tímida de seu brilhar,
seca de potencialidade;
mantém-se firme,
tristemente firme
no incessante fluir da vida.
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