segunda-feira, 28 de novembro de 2011


A saudade é vento forte
que sopra longe o sorriso
e faz a gente lá longe ir buscar.
Ele sai voando entre as pétalas,
rodopia num compasso
e cai lá no limite dos olhos.
E aí, tem que ir buscar,
pulando os pedregulhos,
trepando os galhos de árvore.
Aí chega machucado,
todo dolorido,
mas pega o sorriso com as duas mãos
e volta assobiando com os colibris,
correndo com as preás
e cantarolando pra casa.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011


A frase que não foi dita,
inundada no vácuo
e na memória.
Ressoou branca
nos relevos extremados
da língua,
voou soberana pelo céu vermelho
para se acabar solta no imaginário.
Frase concebida disforme
no esmorecer da tarde
na frágil liberdade dos Homens,
Mulheres e brisas febris.
Ela, sintaxe contorcida de idéia,
dissolvida no ar
como promessa de esperança,
rima de infância
desespero inocente.
Broto de poema
na inutilidade da folha branca,
a frase não saiu,
engasgada entre pêlos e sombras,
luzes e movimentos.
Equilibrista
de finas cordas vocais
que separam gozo e solidão,
a frase caiu em gargantas alheias
e foi falada sem a emoção digna
de seu retumbante efeito.
A frase guardou-se,
tímida de seu brilhar,
seca de potencialidade;
mantém-se firme,
tristemente firme
no incessante fluir da vida.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Amar é resplandecer o Sol de si
É encontrar o que transborda
e se deliciar num barro primordial
sujos de lama e sentimentos avassaladores.
Amar é plantar
sementes de poesia
nos corpos compostos
de sexo e prosa.
É estar livre de si,no outro;
estar livre do outro
banhado em si e nas profundezas do mundo.
Amar é água que se acumula
seja em lago, lagoa funda,
ou em chuva,banhando os corpos
suados e sadios
dos enamorados.

terça-feira, 15 de novembro de 2011


a Antônio Ruoppolo

Em meio à tarde,
último dia da Criação,
vi-me nos olhos de meus avós:
na tradição das bonequinhas alvas brancas de porcelana
no armário requintado colonialmente
eis lá que vi
a bonequinha negra, baiana
êta, mainha!
E como se não bastasse aquela presença rebelde,
ouvi com ouvidos claros
um “quiçá” na língua de meu avô.
Vi, diante de meus olhos,
anos e décadas e séculos de macarronada virem abaixo
as duas Guerras esquecidas no baú
e minha rebeldia adolescente fez todo sentido
nos olhos daquela baiana
e na língua daquele italiano.

terça-feira, 8 de novembro de 2011


É madrugada
e a chuva escore lenta
pelas janelas.
Estou acordado por buscar
liberdades fluidas
e frias fragilidades,
por construir mundos de amor
e serenidades
nas noites profundas
e por arder em chamas
em lençóis emaranhados
de sonhos.

É madrugada.
A chuva é fina
mas corta a carne dura
e as tremedeiras de febre.
Não é um mundo para
sonhadores
nem para adoradores de orquídeas.
Todo silêncio da noite
sabe disso.
Corpos escuros
se procuram na sombra.

É madrugada
e os cães latem sutilmente.
Araras dormem em seus poleiros
enquanto eu arquiteto desejos,
vontades mal amadas
e realidades triviais.
Sou filho da pele e do toque,
não sou escravo de nada
nem santifico imagens.
Me crio nessa chuva de verdades;
é madrugada
e amanheço o dia
em cristais de verso e prosa,
devoro o mundo em minhas mãos
e costuro sentimentos
de luta e seda.

Sou eu meu próprio dia
a crescer triunfante
no horizonte.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Você não me completa.
Na verdade, o sentimento é completamente oposto.Você me incompleta,
distorce o mundo já feito
e se abre a mim,
como uma flor de hibisco,
a infinitas possibilidades.
Com você, há sempre uma carta a escrever.
Nada parece suficiente
frente ao tudo que você me representa.
Há sempre um sentimento novo
no amar-te,
que precisa ser palpado
pela minha precoce poesia,
e cheirado,
cheio de desejos e ardências.
O mundo se dispersa
em você.
Te sinto em tudo que toca,
me choca,me chama
e me embeleza.
Mas parece que a tudo falta,
sua presença não está lá
para ser digno de amar.
São paixões,
dessas que se tem com tudo.
Com você há sempre um mundo
a ser explorado,
um novo ângulo para te fitar,
uma sensual geografia
para ser cuidadosamente beijada,
um grito novo a se cantado
pelos pássaros.
Não quero completar-me,
terminar-me num falso ser tudo.
Quero mais esse seu corpo
de profundo vazio
que se faz tudo
na minha vida que pronuncia.
Você é o espaço do meu possível,
o impossibilitar da perfeição,
minha quente utopia,
minha eterna revolução.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


A gravidade tudo vence.
Tudo cai por terra, cai no chão.
Lá se vão os anos de memória esquecida,
jovialidade sexual,
a maça profana,
a costela de Adão.
Dêem graças: tudo cai.
É bom nosso amor assim:
Muita raiz, pouca asa.
Estando no ar, nosso amor voa
Estando na terra, nosso amor floresce.
A gravidade tudo vence.
Uma hora tudo cai.
Tudo aqui é efêmero.
Nosso amor, já chão,
a Poesia é composto e nós:
duas flores unidas.
Tudo cai no chão.
Tudo é efêmero.
Nosso amor não.