quarta-feira, 22 de agosto de 2012


A ti, entrego-me inteiro,
sujo e pobre na imensidão do mundo.
Podes me dar o celeste
e o orbital mais belo
de todos astros espaciais.
Podes me dar a liberdade
do céu, o azul espelhado
que enfeita o mundo de beleza.
Podes me dar o vôo,
a agilidade dos mensageiros e
as núpcias da Primavera.
A ti, posso te dar apenas
umas mãos calejadas,
um corpo rugoso e suado
e um desejo cru
de eternidade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Desaprendemos a escutar os outros.

Parece que não pulamos mais

nesse poço de cachoeira,

garganta profunda de gritos interrompidos;

temos demasiado medo

de cobras e chacais

vagando na calada da noite.

Desaprendemos a escutar os delírios

os sonhos mal formados

as estórias de ferro e fogo

os desejos crepitantes

as crenças imemoriáveis

dos outros a nosso redor.

Ficamos apenas na superfície da pele,

parece que não mais vagamos

as incertezas das entranhas

e das carnes mais profundas das pessoas.

Vivemos um desencostar,

um invisível casulo mal cristalizado

que nos comprime amor e devaneio

e não nos deixa sentir as angústias,

as vitórias

e as celebrações dos outros.

Peço humildemente

aos tantos que se desesperam

que se acariciem mais,

ouçam as pulsações do coração

dos desconhecidos

e se deixem maravilhar

pelos desencontros e esperanças

das vidas dos homens e mulheres.

Dispa-se de medo e sombra

e saboreie sua diversidade

em idiomas alheios a sua alma.

Reaprendamos a ouvir delicadamente

e o infinito desprenderá

dentro de nós.