terça-feira, 23 de outubro de 2012

Quero fazer um poema de início,
sobre as coisas que se iniciam
despretensiosas
e ficam suspensas sobre as vontades primeiras.
É um poema sobre potencialidades,
instantes que tomam corpo
e se agigantam ansiosos
por tornarem-se nuvens imensas,
chuva e graniso.
Não me importa o que possam
vir a ser,
quais serão seus esqueletos
ou como falarão sobre o amor,
um ipê multicor com grossas
e extensas raízes.
Me importa o impulso de sua criação
seu espírito de semente
a lançar raízes sobre os leitores
e sorver-lhes as paixões, as lembranças da infância
e os desejos primitivos.
O poema deve ser apagado
riscado e rasurado
até que dispense a folha
a tinta, o grafite
e se torne a pulsão interior
que o criou.
Assim é feito o poema primeiro,
o poema-início
o poema-impulso
e depois disso resta apenas o pó
e uma pobre porção
de palavras.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


A ti, entrego-me inteiro,
sujo e pobre na imensidão do mundo.
Podes me dar o celeste
e o orbital mais belo
de todos astros espaciais.
Podes me dar a liberdade
do céu, o azul espelhado
que enfeita o mundo de beleza.
Podes me dar o vôo,
a agilidade dos mensageiros e
as núpcias da Primavera.
A ti, posso te dar apenas
umas mãos calejadas,
um corpo rugoso e suado
e um desejo cru
de eternidade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Desaprendemos a escutar os outros.

Parece que não pulamos mais

nesse poço de cachoeira,

garganta profunda de gritos interrompidos;

temos demasiado medo

de cobras e chacais

vagando na calada da noite.

Desaprendemos a escutar os delírios

os sonhos mal formados

as estórias de ferro e fogo

os desejos crepitantes

as crenças imemoriáveis

dos outros a nosso redor.

Ficamos apenas na superfície da pele,

parece que não mais vagamos

as incertezas das entranhas

e das carnes mais profundas das pessoas.

Vivemos um desencostar,

um invisível casulo mal cristalizado

que nos comprime amor e devaneio

e não nos deixa sentir as angústias,

as vitórias

e as celebrações dos outros.

Peço humildemente

aos tantos que se desesperam

que se acariciem mais,

ouçam as pulsações do coração

dos desconhecidos

e se deixem maravilhar

pelos desencontros e esperanças

das vidas dos homens e mulheres.

Dispa-se de medo e sombra

e saboreie sua diversidade

em idiomas alheios a sua alma.

Reaprendamos a ouvir delicadamente

e o infinito desprenderá

dentro de nós.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A vida é vibração
e canto.
E eu?
Pulso essa mesma frequência
esse desatino
esse louco canto
animal?
Talho em minha carne esse lembrete,
mas ainda ajo como se houvesse tempo
a ser vomitado
e escancarado às minhas vergonhas.
Eu vibro?
Eu canto ainda
os cantares malditos
proféticos e enamorados?
Me arrasto ainda à vida
que repousa logo à frente
solene
lamuriosa
a me olhar com pena.
Quão forte é meu canto
chiado
sussurro
silêncio?
Como posso calar-me ao me ver potencial
a espera de cataclismas
fins de fins
começoes maltratados das coisas
digestões enfermas?
Que me doa cada letra entoada
cada corte feito na alma
para que enfim entenda
essa pura verdade que me assola:
a vida pulsa, grita
vibra e canta,
mas não espera.

terça-feira, 10 de abril de 2012


aos babilaques

diversidade
diverso diversa
diversa idade
a diversidade
o diverso
adversa,
divertida diferença.

diversidade
há de ver a cidade
o diverso
a diversa idade
divertida
de ver
de verdade,
adversa cidade
adversidades.

diversidade
diva-cidade
divino adverso
verso de ver
vadio universo
poliverso
diversidade
de divas
de versos
de idades
de adversos
adversidades
ver diversas cidades
na cidade
diversidade
de ver
há de ver
há de ver cidade
há diversidade
adversidade.

segunda-feira, 19 de março de 2012


Digo
para essa tristeza que se encontra:
-Vai. Toma forma de asa e vai.
E te digo, descompassado,
que me tome corpo e alma
para além das carniças que me encontro,
para o encontro do além-mar.
Toma-me.
Obriga-me.

quinta-feira, 15 de março de 2012


Descobri um sorriso embaixo da terra.
Era ela, de voz suave
a clamar por minha alma.
Criou-me como filho,
apesar de minha raça.
Me fez amante
de seu ventre fecundado.
E me fez a vida,
como se nascesse morto
e, ao encontrar-me com ela,
morrerei vivo
na leveza de seu ser.