segunda-feira, 19 de março de 2012


Digo
para essa tristeza que se encontra:
-Vai. Toma forma de asa e vai.
E te digo, descompassado,
que me tome corpo e alma
para além das carniças que me encontro,
para o encontro do além-mar.
Toma-me.
Obriga-me.

quinta-feira, 15 de março de 2012


Descobri um sorriso embaixo da terra.
Era ela, de voz suave
a clamar por minha alma.
Criou-me como filho,
apesar de minha raça.
Me fez amante
de seu ventre fecundado.
E me fez a vida,
como se nascesse morto
e, ao encontrar-me com ela,
morrerei vivo
na leveza de seu ser.

segunda-feira, 12 de março de 2012


De repente, sua voz.
Num ordenado caos, sua voz.
Numa matinal explosão, sua voz.
Deslize. Oceano.
Sua voz a ser minha canoa,
que sustenta os sonhos
recém colhidos da rede.
Penetra as gotas que me percorrem,
deixando rastros de cometa
nessa doce constelação
de poros e pêlos.
É uma filarmônica,
sussurrada como um segredo
para não perturbar os insetos do mundo.
Embala no refrão dos apaixonados
a movimentação das abelhas,
que mergulham em ambrosia,
o primeiro vôo da lagarta então alada
e a linear ciranda das formigas em marcha.
Sua voz...ah, sua voz...
Desagregou átomos,
que pela primeira vez
voaram livres de suas estruturas.
Vi fusões de poemas,
o povo nas ruas,
como pulgões na superfície
de uma folha.
Ouvi sua voz, que alegria!
Senti os desejos do mundo
fluindo com meu sangue
numa procissão de Carnaval.
Sua voz, sua voz...
No ímpeto do poeta, sua voz.
Na diluição da calma, sua voz.
No continuar do infinito, sua voz.

sexta-feira, 9 de março de 2012


Dama do oceano,
com seu vestido de algas
que arrastava a alma dos homens,
arrastou-me a vida.
Seu olhar petrificou-me no
tempo. Nada passa.
Os minutos. Os segundos. Nada.
Só passa em minha mente
as memórias moribundas
que esvaecem.
O tempo não passa.
Não me venha com memórias.
Elas esvaecem.
Mas sua presença permanece viva,
intensa, em meu peito enevoado.