quarta-feira, 2 de abril de 2014

Me fala de liberdade
Como se me falasse de uma ilusão,
Doce na boca de criança
Para aplacar a fúria profunda
De seu tombo.
Não fale sobre o que é transitório
Sobre o que inflama feridas noturnas
E convida os fantasmas aos aposentos.
Quero saber o que te impulsiona,
O que quer provar aos deuses
E o que busca para preencher
Seus vazios,
Abismos de sentimentos
Pedras nas sandálias
Com que caminha ao meu encontro.
Liberdade se fala num grito
E é de amor que sussurramos
Entre as calçadas,
Nos bueiros de nossos ouvidos.
Buscamos ser suaves
Em terras de dragões.
Nos guardamos em ânforas
Próximas demais das fogueiras
Que nos alimentam.
Que diriam os deuses que nos guiam
Se vivêssemos a placidez de nosso castelo
De brilhantes areias
Sem atentarmos às labaredas?
Trago votos de serenidade.
Trago pétalas de plenitude.
Trago o sangue que me jorrou
Dos amores que tive,incompletos.
Trago frutas maduras,
Prontas para o desfrute.
Trago sementes que busco plantar
Onde brilha o olho por imensidão.
Não quero me esquecer do caminho
Ao caminhar.
Abro minha mão ao te receber,
Ferida
Com dores pelo corpo
Com vozes intermináveis
Que te gritam dúvidas de ordem.
Te acolho em meu silêncio
E te ofereço meus caminhos novos,
Minhas estradas sem rumo
Meus devaneios profanos.
Aceita meus caminhares?
Quero muito que aceite
Esses passos inadequados
A qualquer sapato que se preze.
Nunca trarei respostas
Nem alimento para seus flagelos.
Te ofereço um passo de dança
Que dançará sozinha,
Caso tenha coragem.
Te observarei
Encostarei meu corpo junto ao seu
Trarei compasso para seu coração
Atordoado
Maltratado
Por falso heróis em seus cavalos.
Te olharei nos olhos
Quando estiver solta demais
E prestes a desmaiar.
Quem você precisa que eu seja?
Palavras são faíscas
De fogos inusitados;
Há labaredas profundas que acordam
Quando clama aos ventos
Por liberdade.
Amarro seus cadarços
Das alpargatas de cobre
E digo: vá.
Caminha.
Trilha os caminhos
Que te atormentam nas noites.
Carrega o amor nos braços
Como se tardasse por dar os primeiros passos
E te encontrarei
Volátil
Flutuante
Sussurrando leve em sua alma
"Liberdade,liberdade..."

quarta-feira, 26 de março de 2014

peito bunda pinto
nada disso vale
quanto o que eu sinto
minto
uma taça de vinho tinto
não seria
nada mal.
um olhar bem dado
vale mais
que um fado
sarado
no estrado.
há muita poesia
pra pouco desbunde,
não há fila que ande
ou casa que eu mude
que valha tanto
quanto a alegria
de surgir no seu dia,
num barco que afunde
ou em qualquer
ventania.
o valor tá no quilate
no beijo
na arte,
um arrebate certeiro
na ponta da sorte
a fuga da morte
no alto do cruzeiro.
são tantas gentes
trilhos
nascentes
corpos pulsantes
que tocam
se sentem
carentes
latentes
de antes
da aurora;
um rosto que chora
a chuva lá fora
que molha o batente.
é  um peito que pulsa
o valor que sente
no riso leve
na prosa
na rosa
indecente.

terça-feira, 16 de julho de 2013

a rua grita e chama
reclama
o peito inflama
a boca declama
a gente se ama
se banha na cama
se enrosca
se trama
vira fama
volta pra rua
acende a chama
a gente derrama
invoca a cigana
se esquenta
se abana
de noite
na cama
o polvo
o povo
a pele
você nua
madura
me chama
vem
e eu
na sua
figura
na rua
que grita
reclama
revela
a pintura
você, nua
o corpo declama
te amo
na altura
do canto soprano
da voz da rua
gritando pra Lua
poeta, segura!
a gente transforma
o mundo amando.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Te espero hoje.
Meu corpo sabe que é sexta.
Você chegaria na sexta,
Mas dessa vez,virá no sábado.
Sábado.
Terá algo de sabático
essa minha jornada
pela noite de hoje sem ti.
Meditarei.
Respirarei fundo.
E seguirei pela espinhenta noite
pelo ruidoso dia
pelas falas perdidas
e vontades rechaçadas.
Amanhã será sábado,
dia da libertação dos anjos
dia dos gritos engasgados.
Será sábado
e prepararei as poções
e as magias
para te encantar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Quero fazer um poema de início,
sobre as coisas que se iniciam
despretensiosas
e ficam suspensas sobre as vontades primeiras.
É um poema sobre potencialidades,
instantes que tomam corpo
e se agigantam ansiosos
por tornarem-se nuvens imensas,
chuva e graniso.
Não me importa o que possam
vir a ser,
quais serão seus esqueletos
ou como falarão sobre o amor,
um ipê multicor com grossas
e extensas raízes.
Me importa o impulso de sua criação
seu espírito de semente
a lançar raízes sobre os leitores
e sorver-lhes as paixões, as lembranças da infância
e os desejos primitivos.
O poema deve ser apagado
riscado e rasurado
até que dispense a folha
a tinta, o grafite
e se torne a pulsão interior
que o criou.
Assim é feito o poema primeiro,
o poema-início
o poema-impulso
e depois disso resta apenas o pó
e uma pobre porção
de palavras.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


A ti, entrego-me inteiro,
sujo e pobre na imensidão do mundo.
Podes me dar o celeste
e o orbital mais belo
de todos astros espaciais.
Podes me dar a liberdade
do céu, o azul espelhado
que enfeita o mundo de beleza.
Podes me dar o vôo,
a agilidade dos mensageiros e
as núpcias da Primavera.
A ti, posso te dar apenas
umas mãos calejadas,
um corpo rugoso e suado
e um desejo cru
de eternidade.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Desaprendemos a escutar os outros.

Parece que não pulamos mais

nesse poço de cachoeira,

garganta profunda de gritos interrompidos;

temos demasiado medo

de cobras e chacais

vagando na calada da noite.

Desaprendemos a escutar os delírios

os sonhos mal formados

as estórias de ferro e fogo

os desejos crepitantes

as crenças imemoriáveis

dos outros a nosso redor.

Ficamos apenas na superfície da pele,

parece que não mais vagamos

as incertezas das entranhas

e das carnes mais profundas das pessoas.

Vivemos um desencostar,

um invisível casulo mal cristalizado

que nos comprime amor e devaneio

e não nos deixa sentir as angústias,

as vitórias

e as celebrações dos outros.

Peço humildemente

aos tantos que se desesperam

que se acariciem mais,

ouçam as pulsações do coração

dos desconhecidos

e se deixem maravilhar

pelos desencontros e esperanças

das vidas dos homens e mulheres.

Dispa-se de medo e sombra

e saboreie sua diversidade

em idiomas alheios a sua alma.

Reaprendamos a ouvir delicadamente

e o infinito desprenderá

dentro de nós.