sexta-feira, 3 de agosto de 2012


Desaprendemos a escutar os outros.

Parece que não pulamos mais

nesse poço de cachoeira,

garganta profunda de gritos interrompidos;

temos demasiado medo

de cobras e chacais

vagando na calada da noite.

Desaprendemos a escutar os delírios

os sonhos mal formados

as estórias de ferro e fogo

os desejos crepitantes

as crenças imemoriáveis

dos outros a nosso redor.

Ficamos apenas na superfície da pele,

parece que não mais vagamos

as incertezas das entranhas

e das carnes mais profundas das pessoas.

Vivemos um desencostar,

um invisível casulo mal cristalizado

que nos comprime amor e devaneio

e não nos deixa sentir as angústias,

as vitórias

e as celebrações dos outros.

Peço humildemente

aos tantos que se desesperam

que se acariciem mais,

ouçam as pulsações do coração

dos desconhecidos

e se deixem maravilhar

pelos desencontros e esperanças

das vidas dos homens e mulheres.

Dispa-se de medo e sombra

e saboreie sua diversidade

em idiomas alheios a sua alma.

Reaprendamos a ouvir delicadamente

e o infinito desprenderá

dentro de nós.

Um comentário:

  1. quantos de nós sentimos que precisamos encostar mais em homens e mulheres de medos e anseios internados? que se assumiam os que não se importam em sentir de perto todas as pulsações de todos os que nos cruzam. só na "assumição" é possível tirar este sumiço da caricia que nos faz desaprender que somos mais carnais e frutos do primitivo do que havíamos imaginado.

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