sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Com o tempo, me acostumei
a despedidas,
rios turvos e turbulentos
que se distanciam das margens.
Construí um barco
com minhas memórias
e usei-o como carapuça,
forte e inquebrável armadura
de pequenos e doces momentos,
contra a indigestão das horas.
Me acostumei com trovões,
lampejos
chuvas de verão
ventanias de rápida passagem
e gozo intenso,
onde a brevidade dos encontros
rodopiam em fúria e intensidade
sentimentos e rosas ambíguas
de suaves e perfumados espinhos.
Acostumei-me a partir
a deixar sonhos perturbados
e a levar comigo imensas casas
de nuvens e folhagens carregadas;
fiz roteiros de silêncio
pelas abandonadas ruas
de flores murchas
e de projetos inacabados.
Já tenho bagagens prontas:
roupas velhas
livros pacientes
aleatoriedades
e inutilidades diversas.
Não levo gracejos,
mas colho simplicidades
nos passos e paragens
do caminho.
Acostumei com partilhas,
estilhaçadas partidas
e intensos verôes
de intimidade,
bolos de terra
e alguns incensos.
Parto.
Reparto.
Nascimento.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

canto para te encantar
canto para te encontrar
no seu canto
te trazer para meu canto
encontrar um conto
para te cantar
te cansar
te consumir
contigo
sumir
sem saber
sem sobrar
sem suar
sensual
sem sacar
que o samba
em suma sabe
que em cima
se sente
sem sobriedade
sem saudade
só sentido
suado
amado
e coisa e tal.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Adiante,
abre-se a janela do automóvel.
Dela nasce uma mão infantil
que se abre para libertar uma borboleta amarela.
Abre-se as asas.
A borboleta voaria longe
num ato belo e inocente.
Voaria, se não fosse pela borboleta
que era, no fundo,
um papel de bala.