sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Com o tempo, me acostumei
a despedidas,
rios turvos e turbulentos
que se distanciam das margens.
Construí um barco
com minhas memórias
e usei-o como carapuça,
forte e inquebrável armadura
de pequenos e doces momentos,
contra a indigestão das horas.
Me acostumei com trovões,
lampejos
chuvas de verão
ventanias de rápida passagem
e gozo intenso,
onde a brevidade dos encontros
rodopiam em fúria e intensidade
sentimentos e rosas ambíguas
de suaves e perfumados espinhos.
Acostumei-me a partir
a deixar sonhos perturbados
e a levar comigo imensas casas
de nuvens e folhagens carregadas;
fiz roteiros de silêncio
pelas abandonadas ruas
de flores murchas
e de projetos inacabados.
Já tenho bagagens prontas:
roupas velhas
livros pacientes
aleatoriedades
e inutilidades diversas.
Não levo gracejos,
mas colho simplicidades
nos passos e paragens
do caminho.
Acostumei com partilhas,
estilhaçadas partidas
e intensos verôes
de intimidade,
bolos de terra
e alguns incensos.
Parto.
Reparto.
Nascimento.

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