quinta-feira, 13 de outubro de 2011

 "o ser absurdo possui todos os direitos."
Bataille

Minha intimidade
me atormenta,
levada pelos impulsos doentios
de meu corpo
em raivosa ebulição.
Meus gemidos me estremecem
quando sutilmente tocado
por uma brisa quente
um olhar tempestuoso
um verão fluído.
Tenho todos os direitos
de povoar espaços sonoros
e epiteliais
da sua língua
em flor e fogo;
completo sem gozo
com minha vivência absurda
nos alongados dias.
Te permeio
em todas intratáveis geometrias,
esguios contornos que aliso;
me visto com seu corpo,
sua carapaça luxuriosa
que tão bem veste
os anseios e sonhos
que tenho com a vida.
O furacão de minha fome
me transborda em você
e estraçalha minha alma
e minhas roupas triviais
para melhor te penetrar
e dominar seus fantasmas,
floreios e folias;
te quero assim
esgarçada em minha sede,
absurda e repleta
de todos os meus direitos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Gosto de colecionar algumas inutilidades
cartas de baralho e sementes de árvores
tudo que é rico ao coração
e às larvas do quintal.
São delicadas e absurdas
minhas vontades e plenitudes,
vôo de balão
corrida de velocípede
escorregos na pele alheia.
Sorrio com miudezas e profundidades
como uma úmida e leve brisa,
um maracujá com açúcar
e brincadeiras de roda.
Sei de tudo que não existe
e de muito que poderia acontecer.
Sou poeta de infinitos,
vivo com os cosmos e suas
cosmodidades.
Não pertenço a classes,
mas a zumbidos
floridos estampados nos vestidos
e nuas borboletas de carmim
e serafim.
Não sei muito dos fins
apenas dos começos das coisas,
o primeiro beijo
a primeira tempestade
e a primeira cigarra
que canta no limiar da noite.
Gostaria de recomeços,
mas sinto que incomodaria
os bem-te-vis e colibris.
Sou absurdo
marginal
eclético,
e só sei de inutilidades
poéticas.

terça-feira, 4 de outubro de 2011


A frase que não foi dita,
inundada no vácuo
e na memória.
Ressoou branca
nos relevos extremados
da língua,
voou soberana pelo céu vermelho
para se acabar solta no imaginário.
Frase concebida disforme
no esmorecer da tarde
na frágil liberdade dos Homens,
Mulheres e brisas febris.
Ela, sintaxe contorcida de idéia,
dissolvida no ar
como promessa de esperança,
rima de infância
desespero inocente.
Broto de poema
na inutilidade da folha branca,
a frase não saiu,
engasgada entre pêlos e sombras,
luzes e movimentos.
Equilibrista
de finas cordas vocais
que separam gozo e solidão,
a frase caiu em gargantas alheias
e foi falada sem a emoção digna
de seu retumbante efeito.
A frase guardou-se,
tímida de seu brilhar,
seca de potencialidade;
mantém-se firme,
tristemente firme
no incessante fluir da vida.

sábado, 1 de outubro de 2011

Corpo,
se te movo
te exalo,
move-se o mundo
cruza-se desafios.

Corpo,

se te sinto
te incorporo
todos os poros e palmares
pêlos e pomares.

Corpo,

se te abro
te entrego à alma
saboroso e úmido
sem pudor nem calma.

Corpo,

se te desejo
rio
arrepio
te amacio
forte e sadio.

Corpo,

se te quero
saia
dessa roupa que te prende
e dance.